
Os últimos números divulgados em São Paulo e em todo o país mostram
que os casos de violência contra mulheres estão se transformando em
verdadeira epidemia, sem que as autoridades de segurança encontrem
formas de enfrentar a emergência do problema a não ser discutir
prováveis causas e medidas paliativas como a distribuição de cartilhas e
o mapeamento de criminosos.
Embora na semana passada o governador paulista Geraldo Alckmin tenha
anunciado no "Jornal da Record News" uma diminuição dos índices de
violência, ficamos sabendo nesta terça-feira que 37 mulheres foram
estupradas por dia _ por dia, repito! _ em São Paulo no primeiro
quadrimestre de 2013 _ um aumento de 20,8% em relação ao mesmo período
do ano anterior. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o estupro
foi o crime que mais aumentou nos últimos anos em São Paulo.
Para se ter uma ideia da brutalidade que isso significa, é como se um
ônibus lotado de mulheres fossem estupradas a cada dia no maior e mais
rico Estado do País. No Rio de Janeiro, o número de estupros cresceu
ainda mais: 24% no ano passado, chegando a 1.972 casos na cidade.
Entre 2001 e 2010, segundo levantamento do Instituto Avante Brasil,
publicado hoje no site "Carta Maior", 40 mil mulheres foram assassinadas
no Brasil. De acordo com estudo do Banco Mundial citado pela
publicação, mulheres de 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro
e violência doméstica do que câncer, acidentes de trabalho, guerra e
malária.
Apenas na cidade de são Paulo foram registrados 1.113 casos de
estupro este ano. E o que fazemos para enfrentar esta escalada da
violência contra as mulheres? O Conselho Estadual da Condição Feminina,
ligado à Casa Civil do governador Geraldo Alckmin, anuncia que será
feito um levantamento no banco de dados da Secretaria de Segurança
Pública nas próximas semanas "para identificar um perfil destes
estupradores", segundo o jornal "Folha de S. Paulo".
Além disso, será distribuída uma cartilha para orientar mulheres
sobre como agir para evitar estupradores. Posso imaginar mulheres
voltando para casa da escola ou do trabalho por ruas escuras, desertas
e desp0liciadas pedindo licença ao estuprador para consultar o que a
cartilha recomenda.
O problema é muito mais grave do que sugere a reação das autoridades,
que atribuem o aumento dos índices a uma mudança na lei que passou a
considerar estupros crimes que antes eram registrados como atentados
violentos ao pudor, mas o mais grave é que 90% das mulheres violentadas
não buscam auxílio médico imediato para evitar a gravidez indesejada.
"O dado sinaliza que o trauma faz com que a primeira reação das
mulheres ainda seja a reclusão. Só depois, quando percebem a gravidez, é
que elas passam a tomar atitudes e enfrentam o problema", diz a
psicóloga e mestre em Saúde Pública Daniela Pedroso.
Em 61% dos casos estudados por Daniela Pedroso, o autor era
desconhecido da vítima, mas a delegada Celi Paulino Carlota, da 1ª
Delegacia da Mulher, constata exatamente o contrário: "Em 90% dos casos
que temos aqui o autor conhecia a vítima. Era pai, padrasto, avô ou até
amigo em algum site da internet".
A crescente violência contra a mulher no Brasil chamou a atenção da
imprensa mundial, como se pode ver em reportagem publicada hoje pelo
"New York Times" e reproduzida aqui no
R7 (leia aqui), depois
que estupradores violentaram uma estudante norte-americana de 21 anos
na mesma van em que haviam cometido o mesmo crime contra uma menina
brasileira de 14 anos, uma semana antes.
O governador carioca Sergio Cabral não se mostra muito preocupado com
o problema, segundo o relato do NYT, ao afirmar que o Rio "está vivendo
um momento vigoroso com grandes eventos e investimentos". Parece que no
Brasil cidadãos e seus governantes vivem em mundos e realidades
diferentes.
Do Balaio do Kotosch