Tecnologia transforma a Caatinga
Barra (BA) – A
trajetória de Fabiano, personagem criado por Graciliano Ramos em Vidas
Secas, obra publicada em 1938, retrata a vida miserável de uma família
de retirantes sertanejos forçada a se mudar de tempos em tempos para
lugares menos castigados pela falta de chuva. O clássico da literatura
nacional foi durante muitos anos o retrato da realidade de brasileiros
castigados pela estiagem no Semiárido brasileiro. O cenário da caatinga e
a seca ainda são os mesmos no sertão de hoje, mas deixar a terra por
causa da estiagem não tem sido mais a única alternativa nos últimos
anos. Conscientes das limitações impostas pelo Semiárido, moradores da
região têm procurado se adaptar e conviver com o clima do campo.
Emanuel Amaral
Aridez
da grandes faixas de terra, provocada por secas cada vez mais
frequentes, não impede o Nordeste de produzir alimentos para manter o
homem no campo
Durante quase 20 anos, a agricultora baiana
Maria Eulália, de 62 anos, morou em Salvador. Na cidade, ela criou seis
filhos biológicos e cinco adotados. Há sete anos dona Lia, como gosta de
ser chamada, retornou ao campo com o marido. Mesmo sem chuva, cumpriu a
promessa de retorno ao sertão, como diz a música Asa Branca, de Luiz
Gonzaga: “Hoje longe, muitas léguas/ Numa triste solidão/ Espero a chuva
cair de novo/ Pra mim voltar pro meu sertão”.
Moradora do
Projeto de Assentamento Antônio Conselheiro, localizado na zona rural de
Barra, na Bahia, dona Lia descreve seu retorno com brilho nos olhos.
“Apesar de gostar de Salvador, preferi voltar para o sertão. Meus filhos
já estão criados e quiseram ficar lá, mas meu sonho era voltar para
perto do Rio São Francisco. Gosto mesmo é do campo”, conta.
A
comunidade de dona Lia é atendida pelo projeto “Transferência de
tecnologia de irrigação para fruticultura em níveis de agricultura
familiar em perímetros irrigados de assentamento do Semiárido
brasileiro”, da Embrapa. Ao todo, 15 famílias ocupam uma área de 2.845
hectares da antiga fazenda Canal do Rio Grande II. A tecnologia permitiu
aos moradores trabalharem no plantio de mandioca, umbu, laranja, caju,
milho, feijão, acerola e hortaliças.
Produtos são inseridos no mercadoSegundo o pesquisador de sistemas de produção sustentável da Embrapa, Marcelo Romano, os resultados da
pesquisa
possibilitaram a melhora na segurança alimentar dos moradores do
Assentamento Antônio Conselheiro e ainda viabiliza a inserção dos
produtos no mercado local ou institucional, em programas do governo
federal de aquisição de alimentos.
“A lógica do trabalho é
difundir a irrigação, transferir tecnologia de irrigação e adaptar as
condições que eles se encontram. Aliado ao desenvolvimento da irrigação,
temos a introdução de materiais genéticos desenvolvidos pela Embrapa de
qualidade. Por meio de uma experimentação local, podemos selecionar
aqueles que são mais adaptados às condições deles. Particularmente, acho
que a gente se sente muito
recompensado
de trabalhar com esse público, principalmente quando a gente vê as
respostas que estamos tendo aqui nesse município”, complementa o
pesquisador.
A experiência de dona Lia com a tecnologia repassada
pela Embrapa é compartilhada pelo Projeto de Assentamento Fundo de
Pasto Ribeirão. A comunidade está localizada a 18 quilômetros de Barra,
em uma área de 600 hectares. Entre as 13 famílias que vivem no local
está a de Sandra Santos da Silva, de 30 anos. A jovem agricultora já é
mãe de cinco meninas e recebe R$ 502 mensais do Bolsa Família por manter
as quatro crianças maiores na escola. Sandra também resistiu ao êxodo
devido às secas e não quis sair do campo.
“Meus pais e meus avós
sempre gostaram de morar na área rural e eu tomei esse gosto. Mas
acontece de muitas vezes perder o estímulo porque se a terra não está
dando o sustento, não podemos deixar nossos filhos morrerem de fome”,
conta.
Fim das viagens a São Paulo em busca de trabalhoA
líder comunitária Alzira da Silva Santos, de 49 anos, mãe de Sandra,
nasceu na região e chegou a morar em São Paulo. Retornou há oito anos.
“A gente ia e voltava, mas chegou um tempo que decidi ficar aqui de vez.
Antes, o mais difícil era a alimentação. Já a seca é sempre igual. Esse
ano mesmo não choveu, só teve um ‘tira pó’. Mas aqui é melhor que a
cidade, é sossegado, livre da violência. Também há os animais, lá a
gente não pode criar”, relata.
A tendência observada nos
assentamentos rurais é acompanhada diariamente pelo Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (Incra). De acordo com o presidente do
órgão, Carlos Guedes, esse é um “novo momento” dentro dos assentamentos
devido às mudanças na atuação do Incra junto às comunidades rurais, já
que políticas públicas integradas têm garantido condições básicas de
vida.
Guedes destacou a parceria com o Ministério da Integração
Nacional que vai levar a 30 mil famílias assentadas do Semiárido o
acesso aos sistemas de abastecimento de água simplificados, como
cisternas, adutoras ou encanamentos, por meio do programa Água para
Todos.
“O ano passado investimos junto com o Ministério da
Integração R$ 84 milhões para atender essas 30 mil famílias no
Semiárido. Essas famílias vão ter acesso à água, em que elas vão ter o
seu equipamento de reserva de água por meio de cisterna ou outro sistema
que possa se desenvolver em conjunto com a grande obra de
infraestrutura de água que está sendo feita pelo PAC”, explicou o
presidente do Incra.
Para melhorar as estradas e vias de acesso
nas zonas rurais, outra demanda frequente, está sendo preparando um
acordo com município que se compromete a comprar a produção do
assentamento rural.
Fonte: Tribuna do Norte